Uma adaptação diz respeito a mecanismos de enfrentamento passados adiante por milênios porque funcionaram (Buss, 2000, p.17-18), no sentido de que contribuíram para que ancestrais humanos pudessem reproduzir e sobreviver ao longo da história filogenética (Buss, 2000).
Partindo de tal compreensão, os evolucionistas defendem que a presença do ciúme é necessária às relações, marcando a existência de compromisso entre os parceiros. Há problemas então quando o ciúme está ausente ou é excessivo; no último caso, porque tende a ser destrutivo à relação e, no primeiro, na medida em que a presença do ciúme é interpretada como sinal de amor, e sua ausência como falta de amor (Buss, 2000).
Dentre os benefícios que o ciúme pode trazer à relação pode ser citado que: ensina as pessoas a não menosprezar os parceiros, torna o relacionamento mais duradouro, indica o amor pelo parceiro, torna os relacionamentos mais excitantes, possibilita a avaliação do próprio relacionamento, faz o parceiro sentir-se mais desejável... (Pines & Aronson, 1983, p. 124). Provavelmente, devido a tais aspectos, o ciúme seja considerado útil para eliminar a ameaça de perda, conforme Buss (2000).
Buss (2000) distingue os efeitos positivos do ciúme entre homens e mulheres. De acordo com o autor, para o homem, o ciúme é útil uma vez que o protege contra os riscos de perder o tempo que investiu na corte de uma mulher, de dedicar-se aos filhos que não são seus e de danificar sua reputação. Para as mulheres, a utilidade do ciúme estaria relacionada ao fato de afastar a possibilidade de uma rival retirar a segurança emocional para com ela e filhos. Nas palavras de Fisher (1995), “O ciúme ajudou a restringir a prevaricação nas mulheres e o abandono por parte dos homens (p. 197).
Com base nessas diferenças, os teóricos evolucionistas acreditam que embora homens e mulheres apresentem ciúme, os motivos que produzem tal emoção são distintos - o homem é mais afetado pela ameaça de um envolvimento sexual, enquanto a mulher pela ameaça de um envolvimento emocional (Buss, 2000; Fisher, 1995). Porém, é importante ressaltar que as diferenças entre os sexos podem desaparecer quando a ameaça de infidelidade envolve uma relação homossexual, já que a reprodução torna-se impossível (Sagarin, Becker, Guadagno, Nicastle & Millevoi, 2003).
Embora defendam que ciúme traz benefícios à relação, os evolucionistas também identificam prejuízos que o ciúme acarreta, podendo ser divididos os efeitos negativos em três categorias principais: efeitos negativos sobre o indivíduo ciumento, efeitos negativos sobre o parceiro que é alvo do ciúme e efeitos negativos sobre a própria relação. Uma tabela é útil para explicitar tais efeitos.
A tabela torna evidente que o ciúme pode ser altamente prejudicial aos indivíduos e às relações, contrariamente ao que é defendido pelos próprios evolucionistas. E, fazendo uso do referencial comportamental, permite visualizar ainda que os efeitos sobre o indivíduo que sente ciúme estão relacionados a eventos privados, embora seja importante ressaltar que tais eventos tendem a fazer parte da contingência quando passam a controlar comportamentos públicos como forma de eliminar ou diminuir a ameaça de perda, o que será retomado adiante - e que, sobre aquele que é alvo do ciúme, os efeitos podem ocorrer tanto sobre eventos públicos quanto privados.
Em síntese, numa perspectiva evolucionista, o ciúme é uma emoção filogeneticamente determinada, tendo evoluído e se mantido porque foi e continua sendo uma estratégia útil para enfrentar ameaças à relação. Deste modo, ele sempre estará presente em relações que são valorizadas ou nas quais exista o amor verdadeiro (Buss, 2000), o que se mostra compatível com a concepção de nossa cultura que acredita que amor sem ciúme não é amor.
COSTA, Nazaré. Contribuições da psicologia evolutiva e da analíse do comportamento acerca do ciúme. Rev. bras.ter. comport. cogn., São Paulo, v. 7, n. 1, jun. 2005 . Disponível em