sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Para Comer e para Curar

Perigosa combinação - O marco histórico para o estudo das interações entre alimentos e medicamentos aconteceu na década de 1960, quando pacientes deprimidos, tratados com antidepressivos inibidores da monoaminoxidade (MAO) ingeriram alguns tipos queijos, vinho tinto ou peixe e apresentaram crise hipertensiva grave, seguida de acidente vascular cerebral e morte. As investigações sobre o fato culminaram com a descoberta da incompatibilidade. Desde então tem crescido o interesse pelo tema. Em 1964, foi publicado o seguinte artigo de J. M. Cuthill, no periódico científico Lancet: “Em 3 de dezembro de 1963, um homem de 40 anos foi tratado para depressão com tranilcipromina. Um mês depois, ele se queixou de dor de cabeça leve mas jantou normalmente com sua família. Na ocasião ele consumiu bife, queijo cheddar e biscoitos. Durante a noite, sentiu-se mal, queixou-se de náusea, tontura e uma dor de cabeça insuportável. Pela manhã, porém já se sentia suficientemente bem a ponto de tomar o café com sua família e consumir dois ou três pedaços grandes de queijo. Após a refeição, ficou agitado, agressivo e confuso, seu nariz começou a sangrar e apresentou confusão mental. Levado ao hospital, continuava confuso, e sua temperatura era alta, seu pulso e pressão sanguínea estavam elevados. Ele morreu às 20:30 daquele dia. Na autópsia, seu cérebro estava aumentado e apresentava sintomas de congestão vascular intensa. Os médicos concluíram que a morte fora resultado da combinação do queijo e da tranilcipromina. Além do cheddar, outros exemplos de queijos maturados como o emental, o roquefort, o provolone, a mussarela e o parmesão apresentam elevado teor de tiramina – e consequente risco de interação com antidepressivos. Além dos laticínios, também são ricos em tiramina frutas como abacate, banana madura e figo maduro ou enlatado os laticínios, os peixes conservados em picles, salgados ou defumados, camarão, caviar, salame, carnes concentradas em molho, sopa industrializada, bem como fígado bovino ou de aves, principalmente se armazenados por longo tempo ou na forma de patês. Fava de feijão, suplementos protéicos, pimenta e molho de soja devem ser consumidos com moderação. Entre as bebidas, fica proibido o vermute, o vinho tinto e a cerveja. Além da restrição de alimentos ricos em tiramina, recomenda-se a redução da ingestão de estimulantes como guaraná, café, chocolate e chimarrão. Alguns cuidados especiais em relação à dieta devem ser adotados para pacientes tratados com sais de lítio, uma medicação bastante eficaz para transtorno bipolar. Produtos ricos em sódio e outros eletrólitos costumam aumentar a excreção da substância, reduzindo seu efeito – ao contrário, as dietas muito pobres em sódio reduzem a eliminação de lítio, aumentando o risco de intoxicação. A dieta, portanto, deve ser normossódica (com quantidades moderadas de sódio). O uso de drogas diuréticas ou chás com essa propriedade – como a carqueja, chapéu-de-couro, cavalinha, quebra-pedra a alcachofra – também costuma acelerar a eliminação de lítio e por isso devem ser evitados. Não é possível deixar de lado as evidências de que a alimentação, por si só, tem um papel importante na regulação do humor, pois muitos nutrientes são precursores de neurotransmissores ou fazem parte de sua produção. O tratamento da depressão, por exemplo, merece cuidados nutricionais não apenas porque há muitas interações entre os medicamentos e alimentos, mas também porque variações neuroquímicas dependem da nutrição adequada. A serotonina, um neurotransmissor responsável pela regulação de emoções e determinante na propensão à depressão (no caso da baixa concentração), necessita das vitaminas C, B6, B12, ácido fólico e zinco para sua síntese a partir do triptofano. Este aminoácido está no leite e em seus derivados, na aveia, nos produtos à base de soja, arroz, nos grãos integrais, na carne branca, nos ovos, no mel, na ameixa, na banana, no abacaxi, nas frutas secas, no amendoim, nas nozes, e na castanha entre outros alimentos. Alguns estudos indicam que dietas ricas em carboidratos aumentam a concentração de triptofano, o precursor da serotonina, no sistema nervoso central (SNC). Dietas ricas em proteína, ao contrário diminuem a captação desse aminoácido pela SNC. Isso se justifica porque proteínas contêm, além do triptofano, aminoácidos básicos como metionina e alanina, que competem com o triptofano pelo transporte ao SNC, realizado por transportadores “especializados” contidos na barreira hematoencefálica. Portanto, dietas equilibradas em que a proporção de carboidratos em relação a proteínas é maior podem aumentar a concentração de triptofano no SNC e, consequentemente, de serotonina, popularmente conhecida como a “substância da felicidade”, melhorando assim o humor e reduzindo o risco de depressão. Além disso, dietas ricas em carboidratos aumentam a liberação de insulina após as refeições, intensificando a captação de outros aminoácidos básicos para o tecido muscular e facilitando ainda mais a absorção de triptofano pelo SNC. A insulina liberada pelo aumento de glicose pós-prandial (após as refeições) também aumenta a captação desses aminoácidos básicos para o tecido muscular. Além do triptofano outros aminoácidos, como a tirosina, colina, histidina e taurina, obtidos por meio da dieta, são precursores de neurotransmissores. Minerais como manganês (presente no abacate e em leguminosas), cromo (encontrado em carnes, grãos integrais, germe de trigo, queijo, pimentão verde, espinafre e pimenta-do-reino etc.), cobalto (disponível no amendoim, sardinha, salmão etc.), iodo (no sal iodado, alho, cebola e alimentos origem marinha em geral) e selênio ( comum na castanha-do-pará, carnes e aves), assim como os ácidos graxos e ômega 3 (EPA e DHA) – encontram-se em óleos de peixe, abacate, linhaça e abóbora – também funcionam como importantes combustíveis cerebrais. Referência GOMEZ, R; VENTURINI, C. D. Mente & Cérebro. 218, Ed. Duetto. 2011