segunda-feira, 8 de abril de 2013


A EVOLUÇÃO DAS RELAÇÕES PARENTAIS: UMA
ABORDAGEM ETOLÓGICA

The Evolution Of Parental Relations: An Ethological Approach
Lidia Natalia Dobrianskyj Weber

Resumo : o presente texto tem como objetivo apresentar, de maneira breve e didática, a perspectiva  evolucionária do comportamento humano abordada pela Etologia e analisar, a partir desta perspectiva, o surgimento da família e do amor entre pais e filhos. O apego é comprendido como uma necessidade primária foi um mecanismo básico desencadeador e mantenedor de maior investimento parental humano que contribuiu para o desenvolvimento da família humana. São exploradas algumas competências básicas do bebê que revelam sua natureza social.
Palavras-chave : etologia; investimento parental; família; competências do bebê.

Imagine a seguinte cena: uma mãe está amamentando o seu bebê recém-nascido enquanto o pai brinca com os outros filhos dando cambalhotas e fazendo-lhes cócegas. Se você imaginou uma bonita família de olhos azuis ou relembrou sua vivência com seus filhos não se sinta ofendido, pois a cena descrita é de uma família de chimpanzés... Só a semelhança comportamental entre a cena descrita e a cena familiar que cada pessoa tem em seu imaginário seria suficiente para mostrar a importância do estudo do comportamento de outros animais.

Os papéis de mãe e de pai nos são tão intimamente familiares que parece que se sabe tudo o que é necessário sobre eles. Todas as pessoa são, obviamente, filhos e a maioria das mulheres tornam-se mães: dados internacionais mostram que 85% dos mulheres acima de 40 anos (que passaram pela idade gestacional) têm filhos (SMALL, 1998). Logo, a compreensão da relação ente pais e filhos é vital e para compreender a maternidade e a paternidade de maneira mais profunda e é preciso buscar subsídios não só na Psicologia, mas em outras áreas de conhecimento, uma vez que somos, por essência, seres bio-sócio-psicológicos.

Uma área que nos proporciona um enfoque interessante sobre as relações parentais é a Etologia - o estudo comparativo do comportamento: “é a disciplina que aplica ao comportamento animal e humano todas as metodologias e todas aquelas perguntas feitas nos outros ramos da Biologia, desde o tempo de CHARLES DARWIN”. A Etologia teve seu início na Alemanha, no fim da década de 1930 com os estudos do austríaco KONRAD LORENZ que tinha clara influência dos trabalhos de DARWIN. Em 1973, KONRAD LORENZ, KARL VOM FRESCH, e NICHOLAS TIMBERGEN ganharam o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia por terem criado uma nova ciência, a Etologia. Sua principal premissa é a perspectiva evolucionária, ou seja, o comportamento é um produto e um instrumento do processo de evolução através da seleção natural. É preciso lembrar que a seleção natural não atua sobre o gene mas sobre a seleção do
gene. Em uma mesma espécie existe grande variabilidade e a pressão seletiva em um ambiente evolucionário ocorreu sobre indivíduos que se mostraram mais adaptados biologicamente, isto é, sejam portadores de uma carga genética que contribui para a sua sobrevivência e de seus descendentes. Diversamente do termo "adaptação" em Psicologia, o processo de adaptação evolucionária ocorreu não na história individual mas na história da espécie.

É possível argumentar que o ser humano é especial e muito diferente dos outros animais. De fato ele é, mas atualmente a teoria da evolução proposta por Darwin parece ser inquestionável em certos aspectos, e mesmo que alguém se sinta absolutamente diferente dos nossos parentes mais próximos, os pongídeos (chimpanzés, gorilas, orangotangos e bonobos), as pesquisas recentes reduziram de forma drástica a distância teórica entre macacos e homens. De fato, ao adotar essa teoria da evolução, é preciso acreditar na continuidade entre o comportamento dos animais e do homem, e ter consciência que, apesar de a Etologia enfatizar o estudo dos animais, tem o objetivo de entender o ser humano. Apesar de os humanos se sentirem tão especiais em relação a outros animais, o código genético (DNA) humano e o do chimpanzé tem 99,4% de semelhança de acordo com achados mais recentes, o que nos faz muito mais parecidos do que supõe nossa vã psicologia. Na verdade, os humanos estão mais próximos dos chimpanzés do que os chimpanzés estão dos gorilas! De fato foi um grande golpe no arrogante narcisismo humano ter de refazer a própria imagem divina pelo parentesco com os primatas...

Como citar este artigo:
Weber, L.N.D. (2004). A evolução das relações parentais: uma abordagem etológica. Psicologia
Argumento, 22(38), 19-26.



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