quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O Medo na Perspectiva Evolucionista

Ao se analisar o Medo na perspectiva evolucionista desconsiderou-se neste trabalho os medos aprendidos através de um processo de aprendizagem chamado condicionamento clássico de medo, ocorrendo quando estímulos aparentemente inofensivos são associados a estímulos aversivos, especialmente aqueles que deflagram dor. E também pode-se adquirir novos medos, ao longo da história pessoal, através de determinadas relações sociais que também envolvem aprendizagem do tipo associativa.

Na perspectiva evolucionista foi focado aqui apenas o medo inato, isto é, os que foram, através da evolução filogenética tidos como fonte de ameaça à sobrevivência da espécie. O fato dos ancestrais humanos terem sentido medo permitiu o desenvolvimento de mecanismos de defesa, garantindo a sobrevivência da espécie, e segundo Goleman (2007) é a emoção crucial para a sobrevivência. Este mecanismo tornou-se tão bem desenvolvido que hoje, frente a qualquer ameaça há um desencadear de reações bioquímicas cerebrais acionando todo um complexo sistema fisiológico de defesa que se traz desde o nascimento, uma capacidade instintiva. Mas, que ao mesmo tempo pode vir a ser a praga quando se faz interpretação equivocada sobre estes medos no nosso cotidiano, pois podem vir a causar angústias, preocupações excessivas, fobias, desordem obsessivo-compulsiva ou pânico conforme citado por Golemn (2007).

Talvez por isso fique mais fácil entender a observação de Winston (2006) quando este faz um agrupamento das formas de fobias, excluindo-se as raras, em quatro categorias presentes desde há milhares de anos, são elas: a) medo de animais como cobras, aranhas, etc.; b) medo de altura ou escuro; c) medo de sangue ou ferimentos e d) medo de situações perigosas. Corroborando com esta citação, Pinker (2007) coloca que poucas ou mesmo nenhuma fobia se deva a objetos neutros, mas há medo de serpentes mesmo quando jamais se tenha visto uma. Pinker (2007) coloca ainda que na infância, entre três e cinco anos, as crianças manifestam seus medos de objetos fóbicos clássicos como aranhas, escuridão, etc. os quais são ou não dominados e quando não podem vir a ser responsáveis pela maioria das fobias em adultos.

Para Pinker (2007) o medo é desencadeado quando a pessoa se depara com a possibilidade ou um fato concreto que sinaliza a possibilidade de um risco iminente à vida ou à integridade física ou emocional, tal como a presença de um agressor, de um abismo ou mesmo uma ameaça verbal. Este estímulo aciona o mecanismo de defesa inato levando à adoção de ações de curto prazo direcionadas a fuga, desvio ou de enfrentamento do perigo. Este mecanismo de ação de curto prazo é também conhecido como reação de luta-ou-fuga, o que não é de todo correto pois omite-se outras possibilidades de ação como o de “congelamento”, ou até mesmo reações de defesa de outros.

Há também o acionamento de mecanismos inatos acionados e que são de prazos mais longos com o objetivo de evitar a repetição destes enfrentamentos no futuro e também a memorização de como foi feito para se escapar. Pinker (2007, p.407) cita: “O medo é a emoção que motivava nossos ancestrais a lidar com os perigos que tendiam a encontrar... E o medo consiste em várias emoções.”

Oliveira (2007) observa que o ser humano tende a se atentar, memorizar e a considerar mais os fatos isolados relacionados a situações de perigo vividas pessoalmente ou presenciadas em pessoas próximas e queridas, como por exemplo, um ataque de um animal sobre si ou um outro membro do seu grupo do que quando é levado a fazer processos mentais ou imaginários sobre tais fatos. Segundo o mesmo autor, mesmo em se tratando de um fato isolado ou pouco frequente já seria suficiente para disparar todo um mecanismo de evitação que estaria vinculado a um módulo específico de detecção de perigo que por sua vez manteria interface com memória e ação.

É importante ressaltar que os medos mudam com a experiência e vivências de cada indivíduo. Além disso, não se pode esquecer que também não se pode vir a inserir medo com facilidade de qualquer coisa ou deixar de ter medo com facilidade de tudo, pois há limites para o que o cérebro é capaz de aprender a temer com facilidade e esta facilidade é dada se o objeto de medo estiver presente enquanto tal no processo evolutivo da espécie. Esta visão de Pinker (2007) é também compartilhada por Ridley (2008, p.243) ao colocar que: “...o aprendizado está ligado somente a uma gama estreita de alvos, sem os quais não acontecerá.”.

Pinker (2007) cita que se pode com certa facilidade condicionar uma criança a ter medo de ratos, animal que aliás ela normalmente já tem medo, mas quando se substitui este rato por um binóculos, por exemplo, esta criança não aprenderá a ter medo mesmo em se mantendo o mesmo processo de condicionamento em função do cérebro humano ser resultante de uma seleção genética que o pré-equipou para aprender a ter medo daquilo que efetivamente era relevante no passado, segundo Ridley (2008, p.246): “...os genes são partes de um sistema de informação que coleta informações sobre o mundo no passado e os incorpora em um bom projeto para o futuro através da seleção natural.”. Não que não se irá aprender a ter medo de coisas novas, mas sim que se tem uma facilidade em se ter medo mais forte daquilo que tem-se feito como ameaçador por milhares de anos.


REFERÊNCIAS
GOLEMAN, D.; Inteligência Emocional. 10a ed. Rio de Janeiro: Editora Objetiva LTDA, 2007. 383 p.
PINKER, S.. Como a Mente Funciona. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 666 p.
WINSTON, R.. Instinto Humano – como os nossos impulsos primitivos moldaram o que somos hoje. São Paulo: Globo, 2006. 431 p.

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