sexta-feira, 8 de julho de 2016

Segurança, Autoestima e Relacionamentos Amorosos

Segurança e Autoestima. Duas palavras chaves no processo de relacionamento amoroso. Mas para o fortalecimento ou a destruição deste?
Para que possamos entender como estas duas características se dão, vamos primeiro buscar brevemente entender como se constrói um relacionamento amoroso. Relacionamentos amorosos é algo recente na história humana, surgiu com o Romantismo nos idos do século final do século XVIII e restrito apenas às elites do período, tornando-se ou tendendo-se a tornar comum a todos apenas no início do século XX, quando passou-se a se casar por amor. 
Como se não bastasse este curto período de tempo histórico para que as pessoas viessem a se adaptar ou a aprender o que se é e como se é estar casado por amor, a própria sociedade providenciou para que as mudanças em si mesma e nas pessoas se dessem em velocidade jamais ocorrida. Vivemos hoje tempos de constantes e rápidas mudanças, aquilo que Zygmunt Bauman definiu como Era da Liquidez, onde valores anteriormente consagrados, estabelecidos e seguros não mais existem, diluíram-se como gelo em dia de forte sol. Vive-se na precariedade, na incerteza constante, gerando quase que uma total incapacidade de se relacionar com o outro de forma plena, pois cada um de nós está em constante e acelerada mudança desta forma fazendo com que aquele outro que desejávamos num momento há pouco passado, não mais nos atenda no momento presente. Ele se fez outro, nós nos fizemos outro, nossos ideais e desejos em consequência mudaram.
Apesar da definição de Bauman estar bastante correta e aceita hoje, na classificação de uma Era Líquida, ouso dizer que estamos adentrando numa Era Gasosa, onde as velocidades de mudanças se fazem ainda maiores. Vive-se hoje, um processo de mudanças tão acelerado que nem mais temos tempo para conhecer o outro ao nosso lado, e isto nos leva a um processo de individualismo bastante delicado e perigoso.
Neste ponto podemos então pensar na palavra SEGURANÇA. Há possibilidade de nos sentirmos seguros num relacionamento atual? Relacionamento este permeado por mudanças constantes e incessantes? Creio que não. Precisamos aceitar esta total insegurança no relacionamento, aceitar que para estar com o outro, não mais basta conquistá-lo uma vez, já foi este tempo. Hoje se faz mister entender que a conquista deve se dar todos os dias, a todo momento, não como um dever ou muito menos como uma obrigação mas sim por um desejar. Pelo prazer de uma continuidade da presença do outro no caminhar pelo caminho inconstante deste mundo.
Outra palavra em questão – AUTOESTIMA. Há autores, principalmente os direcionados a publicações de autoajuda, voltadas para se viver um relacionamento pleno e feliz, como Davir Schnarch que cita: “Ame você mesmo, confie em você mesmo e não espere a felicidade do outro.”; “Cuide de seus próprios medos e de suas dores”. Tais conselhos em muito fortalecem nossa autoestima, sem dúvida, mas por outro lado, se desenvolvo tal processo individualista e autônomo, haveria de fato espaço para a entrada de outra pessoa no meu mundo? Haveria espaço para um Amar? Quando uma pessoa se sente amada ela se sente especial para a outra, se sente  valorizada para a outra pessoa e portanto também para si mesma, até porque não faz parte do se estar amando se ter a sensação de que se é especial para o outro? Mas isto não deixa a pessoa frágil no que se refere à autoestima?
Temos que ter segurança e autoestima sim, mas estas precisam ser entendidas dentro de um contexto de relacionamento. Não crio um relacionamento com o outro, por uma simples questão de não necessidade do outro, não se relaciona com o outro sem de certa forma criar expectativas, desejos, sonhos, esperanças, construções possíveis.
Sabemos das contradições, sabemos das dificuldades cada dia maior de se estabelecerem relações duradouras, beira até mesmo uma impossibilidade, mas isso não pode ser fator de impedimento de busca. Insisto, num passado próximo era tudo mais simples e fácil, e me refiro a um passado recente. Me recordo quando casais vinham à procura de um “salvar o casamento”, bons tempos; hoje o que se busca é “salvar um amor”, algo muito, mas muito mais difícil. Mesmo biologicamente se faz quase impossível, pois se o amor-desejo, aquele marcado por excitações, novidades, descobertas, ousadias, se faz com a presença de dopamina, esta mesma que reduz a presença de serotonina em nosso cérebro. Serotonina esta que, por seu lado, é a garantidora (entre outros hormônios e neurotransmissores, mas que aqui apenas a cito para exemplificação) de um amor seguro e duradouro. Haja contradição e conflito.
Por isso, para que se construa um relacionamento estável neste mundo instável, precisamos mais do que nunca adequar nossos desejos ideais para desejos reais. Precisamos saber as dificuldades, os caminhos, as diferenças, as dores, o sofrimentos, os conflitos, mas também com os prazeres, as alegrias, os sonhos, as construções e felicidade que compõe esta construção chamada amor. O amor não existe, ele precisa ser criada por cada um de nós todos os dias, pois tal qual o dia, ela morre a cada escurecer. Cito dois autores apenas para completar esta fala, um deles é Richard Precht que coloca: “Aquilo que queremos no amor quase não combina mais. Do amor queremos apoio e vínculo; No amor, queremos liberdade e excitação.” Outro autor que vale ser citado é Ally McBeal que coloca: “O amor é mais necessário do que nunca e mais impossível do que nunca”.
Diferentemente do que se busca ou do que nos fazem acreditar de que necessitamos e temos o direito sempre ao máximo e ao melhor, no mundo do relacionar-se as regras são e devem ser outras, não trabalhamos ali com mercadorias e objetos e sim com pessoas, com emoções, com sentimentos, e este conjunto não se compra ou se desfaz.

Assim, no amor não deve buscar autoestima ou segurança, deve-se buscar AMAR.

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