Segurança, Autoestima
e Relacionamentos Amorosos
Segurança e Autoestima. Duas palavras chaves no processo de
relacionamento amoroso. Mas para o fortalecimento ou a destruição deste?
Para que possamos entender como estas duas características
se dão, vamos primeiro buscar brevemente entender como se constrói um
relacionamento amoroso. Relacionamentos amorosos é algo recente na história
humana, surgiu com o Romantismo nos idos do século final do século XVIII e
restrito apenas às elites do período, tornando-se ou tendendo-se a tornar comum
a todos apenas no início do século XX, quando passou-se a se casar por
amor.
Como se não bastasse este curto período de tempo histórico
para que as pessoas viessem a se adaptar ou a aprender o que se é e como se é
estar casado por amor, a própria sociedade providenciou para que as mudanças em
si mesma e nas pessoas se dessem em velocidade jamais ocorrida. Vivemos hoje
tempos de constantes e rápidas mudanças, aquilo que Zygmunt Bauman definiu como
Era da Liquidez, onde valores anteriormente consagrados, estabelecidos e
seguros não mais existem, diluíram-se como gelo em dia de forte sol. Vive-se na
precariedade, na incerteza constante, gerando quase que uma total incapacidade
de se relacionar com o outro de forma plena, pois cada um de nós está em
constante e acelerada mudança desta forma fazendo com que aquele outro que
desejávamos num momento há pouco passado, não mais nos atenda no momento
presente. Ele se fez outro, nós nos fizemos outro, nossos ideais e desejos em
consequência mudaram.
Apesar da definição de Bauman estar bastante correta e
aceita hoje, na classificação de uma Era Líquida, ouso dizer que estamos
adentrando numa Era Gasosa, onde as velocidades de mudanças se fazem ainda
maiores. Vive-se hoje, um processo de mudanças tão acelerado que nem mais temos
tempo para conhecer o outro ao nosso lado, e isto nos leva a um processo de
individualismo bastante delicado e perigoso.
Neste ponto podemos então pensar na palavra SEGURANÇA. Há possibilidade de nos
sentirmos seguros num relacionamento atual? Relacionamento este permeado por
mudanças constantes e incessantes? Creio que não. Precisamos aceitar esta total
insegurança no relacionamento, aceitar que para estar com o outro, não mais
basta conquistá-lo uma vez, já foi este tempo. Hoje se faz mister entender que
a conquista deve se dar todos os dias, a todo momento, não como um dever ou
muito menos como uma obrigação mas sim por um desejar. Pelo prazer de uma
continuidade da presença do outro no caminhar pelo caminho inconstante deste
mundo.
Outra palavra em questão – AUTOESTIMA. Há autores, principalmente os direcionados a
publicações de autoajuda, voltadas para se viver um relacionamento pleno e
feliz, como Davir Schnarch que cita: “Ame você mesmo, confie em você mesmo e não
espere a felicidade do outro.”; “Cuide de seus próprios medos e de suas dores”.
Tais conselhos em muito fortalecem nossa autoestima, sem dúvida, mas por outro
lado, se desenvolvo tal processo individualista e autônomo, haveria de fato
espaço para a entrada de outra pessoa no meu mundo? Haveria espaço para um
Amar? Quando uma pessoa se sente amada ela se sente especial para a outra, se
sente valorizada para a outra pessoa e
portanto também para si mesma, até porque não faz parte do se estar amando se
ter a sensação de que se é especial para o outro? Mas isto não deixa a pessoa
frágil no que se refere à autoestima?
Temos que ter segurança e autoestima sim, mas estas precisam
ser entendidas dentro de um contexto de relacionamento. Não crio um
relacionamento com o outro, por uma simples questão de não necessidade do
outro, não se relaciona com o outro sem de certa forma criar expectativas,
desejos, sonhos, esperanças, construções possíveis.
Sabemos das contradições, sabemos das dificuldades cada dia
maior de se estabelecerem relações duradouras, beira até mesmo uma
impossibilidade, mas isso não pode ser fator de impedimento de busca. Insisto,
num passado próximo era tudo mais simples e fácil, e me refiro a um passado
recente. Me recordo quando casais vinham à procura de um “salvar o casamento”,
bons tempos; hoje o que se busca é “salvar um amor”, algo muito, mas muito mais
difícil. Mesmo biologicamente se faz quase impossível, pois se o amor-desejo,
aquele marcado por excitações, novidades, descobertas, ousadias, se faz com a
presença de dopamina, esta mesma que reduz a presença de serotonina em nosso
cérebro. Serotonina esta que, por seu lado, é a garantidora (entre outros
hormônios e neurotransmissores, mas que aqui apenas a cito para exemplificação)
de um amor seguro e duradouro. Haja contradição e conflito.
Por isso, para que se construa um relacionamento estável
neste mundo instável, precisamos mais do que nunca adequar nossos desejos
ideais para desejos reais. Precisamos saber as dificuldades, os caminhos, as
diferenças, as dores, o sofrimentos, os conflitos, mas também com os prazeres,
as alegrias, os sonhos, as construções e felicidade que compõe esta construção
chamada amor. O amor não existe, ele precisa ser criada por cada um de nós
todos os dias, pois tal qual o dia, ela morre a cada escurecer. Cito dois
autores apenas para completar esta fala, um deles é Richard Precht que coloca:
“Aquilo que queremos no amor quase não combina mais. Do amor queremos apoio e vínculo; No amor, queremos liberdade e excitação.” Outro autor que vale ser
citado é Ally McBeal que coloca: “O amor é mais necessário do que nunca e mais
impossível do que nunca”.
Diferentemente do que se busca ou do que nos fazem acreditar
de que necessitamos e temos o direito sempre ao máximo e ao melhor, no mundo do
relacionar-se as regras são e devem ser outras, não trabalhamos ali com
mercadorias e objetos e sim com pessoas, com emoções, com sentimentos, e este
conjunto não se compra ou se desfaz.
Assim, no amor não deve buscar autoestima ou segurança,
deve-se buscar AMAR.
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